sexta-feira, março 05, 2004

Fazes-me falta...

Deixávamos o tempo correr e com ele escorrendo-nos por entre dedos entrelaçados de sorrisos vivíamos...
Na sombra dos dias, encostávamos, adormecíamos... e com o despertar acordávamos vontades redobradas. Deixaste, largaste aos poucos a vontade e eu dormia os dias, encostado ao teu caminhar certo. Sorrias nos dias como abraçavas à noite, quente, doce num ditar de convicções, de histórias recontadas, mas nunca velhas, sentavas no colo o corpo que era o meu e nos teus olhos via-me cândido e embevecido nos sons que me acarinhavam ouvido...Recordo-te agora na dor em gotas, no enrugar dos olhos, não compreendia e perguntava-te o que tinhas, respondias palavras cerradas nos dentes que estavas bem, dói-te não me contares o tormento, escondias dos olhos o corpo que te comia, humedecias olhos e na sombra dos dias gemias... ouvia-te ao fundo, fundo, a cada gemido, gritava eu mais alto no pesadelo da criança.
Largaste, deixaste enfim no dia em que não estava, senti-te, humedeci também eu, tiraste-me o herói, chorei-te, choro-te...

Fazes-me falta...

Dedicado ao homem, ao fadista, ao pai, enfim, ao meu avô.

terça-feira, março 02, 2004

Metal Cobarde

O metal frio gelava a vida que por debaixo corria,
O empurrar da vida sentia-se nas gotas que lhe caiam da fronte...
o aperto do escuro dobrava já a esquina quando tudo se assemelhou, quando tudo se passou, naquele momento, naquele segundo, sem rasto nem pudor de figurante, protagonista de um filme que não era o seu... Havia já uns dias que sentia aquela tontura, o regurgitar do absorvido, a náusea, o mal-estar, os exames diziam o que sempre disseram, nada, sangue, punção, ressonância do que não ecoava, o seu corpo não tinha voz, não era o que sempre o acompanhara. O resultado veio mais cedo, mais cedo veio a esperança, num susto de corpo, num martelo-giroscópio no interno ouvido demente, era só desequilibrio.
Ao dobrar a esquina o claro-bem-estar cedeu passagem ao escuro-medonho, apagou, desfaleceu...
Acordou. O metal frio gelava-lhe a vida, esbugalhou olhos na esperança de focar, a silhueta do mal apertava mais a cada segundo, mão tacteante rasgava-lhe o pudor e não compreendia...
já nada importava...
O metal roubara-lhe a vida num rasgar, pingar de vidas...
tinha sido brutalmente assassinado, pelo vil metal.
Agora também ele deixara de ter voz no corpo que se espalhava na calçada com sabor férreo.

E pelo vil metal...